Chakana O símbolo inca da cura
“Neste símbolo está contida toda a nossa sabedoria ancestral e poder.”
Assim que cheguei na casa do maestro o único que senti foi paz. Dessas que o corpo reconhece antes que a mente entenda. Havia grandes jardins ao redor da casa principal e pequenos caminhos de terra marcados por plantas de alecrim, lavanda, e outras ervas medicinais andinas. Tudo parecia vivo. Tudo parecia cuidado.
A uns duzentos metros de distância vi um fogo e várias pessoas ao redor.
Aproximei-me em silêncio.
Eram homens e mulheres, na maioria entre quarenta e oitenta anos, vestidos com ponchos, vinchas e belíssimos trajes cerimoniais andinos. Cada um carregava pacotes feitos com mantas coloridas, tecidas à mão. Com grande atenção, foram colocando-as sobre a terra, diante do fogo, até formar uma espécie de cruz de quase quatro metros de largura por 4 de comprimento.
Mas não era uma cruz como a cristã. Era perfeitamente quadrada. Equilibrada. Escalonada. Bela e imponente ao mesmo tempo.
Um dos homens mais velhos percebeu meu rosto de admiração, sorriu com doçura e me disse ao ouvido:
— É a Chakana, irmão.
Naquele momento eu ainda não compreendia tudo. Mas algo dentro de mim soube que eu estava diante de uma forma de ver o universo.
Na tradição andina, a Chakana é o símbolo que sintetiza e reúne toda nossa sabedoria. Uma forma de lembrar que a vida não está separada em partes soltas, mas organizada em níveis que se correspondem: o mundo interior, a vida concreta e o plano espiritual. Uma forma de conciliar os opostos e de trazer paz e harmonia.
Ela é um símbolo muito antigo. Nos estudos preservados nessa tradição, sua presença remonta a tempos muito anteriores ao Império Inca, aparecendo em lugares sagrados do Peru com mais de 6000 anos de antiguidade. Isso já nos mostra algo importante: a Chakana não é um código ancestral.
Mas é bastante mais do que isso. Ela é importante por ser uma portadora de saúde e harmonia.
A Chakana foi desenhada para comunicar ordem, centro e proporção mediante sua geometria. Ela ensina, sem palavras, que o caminho espiritual verdadeiro está na harmonização consciente de todas as forças que nos sustentam.
Um símbolo ligado ao céu
Uma das chaves mais bonitas para compreender a Chakana é saber que ela foi entendida pelos antigos como uma representação da Cruz do Sul.
Isso quer dizer que ela não surgiu apenas da imaginação simbólica, mas da observação do céu.
Os povos andinos sabiam que a vida humana precisa estar em relação com o cosmos. Para eles, observar os astros não era apenas estudar estrelas. Era aprender a viver melhor. Era alinhar o que fazemos aqui embaixo com uma ordem maior.
Hoje muita gente vive desconectada desse princípio. Corre, produz, decide, consome, reage. Mas raramente se pergunta: minha vida está em harmonia com algo maior do que meus impulsos, meus medos e meus desejos imediatos?
A Chakana surge como resposta a essa pergunta.
Ela nos recorda que viver bem vai além de ter metas, e sucesso material. É encontrar equilíbrio:
com a terra,
com o cosmos,
com a sociedade,
e com nós mesmos.
É isso que leva à saúde e felicidade verdadeira. É isso que pode lhe fazer alcançar as suas metas com maior facilidade e trazer com elas benefícios para seu entorno.
Os três mundos
A forma mais conhecida da Chakana expressa os três mundos da cosmovisão andina.
Ukhu Pacha
É o mundo interior e profundo. Algo que ninguém fala é que representa o espaço das sombras, das feridas, das emoções não resolvidas, do que carregamos sem perceber. Aquela resposta que damos desde as nossas feridas. O id.
Kay Pacha
É o mundo presente. O aqui e agora. Nosso corpo, nossa rotina, nossas relações, nossas escolhas, nossa vida concreta. Responder desde o aqui e agora. O ego.
Hanaq Pacha
É o mundo elevado e sutil. O plano da inspiração, da consciência superior, o mundo das ideias sutis, dos espíritos de luz e do que há de mais nobre dentro de nós. O super ego.
A beleza dessa visão está no fato de que esses três mundos não estão separados.
O que ignoramos dentro de nós afeta nossa vida externa.
O modo como vivemos no dia a dia influencia nossa abertura ao sagrado.
E aquilo que sentimos no plano espiritual só se torna verdadeiro quando ganha corpo em nossas ações.
A Chakana nos ensina justamente isso:
não basta buscar luz.
É preciso integrar.
Se quer saber mais sobre a medicina da Chakana, como usar para se curar, e as práticas mágicas andinas associadas a ela, te convido a estudar o curso “A Medicina Inca dos Relacionamentos”.
O Equilíbrio não é ausência de problemas
Quando falamos em equilíbrio, muitas pessoas imaginam uma vida sem conflito, sem dor, sem tensão. Como a de um guru espiritual.
Mas o equilíbrio na nossa visão não é isso.
Equilíbrio não é uma vida sem desafios.
É uma vida em constante ajuste. Algo como estar acima de uma bicicleta numa trilha difícil. Um constante esforço por sortear os obstáculos com maestria para não cair.
Relação correta com o corpo.
Com a mente.
Com a terra.
Com o tempo.
Com os outros.
Com o invisível.
A pessoa desequilibrada não é apenas a que sofre. Também é a que vive fragmentada. A que quer desenvolvimento espiritual, mas despreza a vida concreta. A que fala de energia, mas não sabe conviver. A que busca o alto, mas nunca desce ao próprio coração ferido.
A Chakana devolve centro.
Ela nos ensina que crescer espiritualmente não significa sair do mundo. Significa aprender a habitá-lo com mais consciência.
A vida como caminho sagrado
Na tradição andina existe ainda uma relação muito profunda entre a Chakana e a forma como os antigos organizavam seus caminhos, seus templos, seus ritos e sua orientação no mundo.
Há aí um conhecimento vasto, belo e surpreendente — que envolve céu, terra, geografia sagrada e desenvolvimento humano. Esse é um tema que não cabe inteiro neste capítulo. E talvez esteja certo que seja assim.
Porque algumas coisas não devem ser entregues todas de uma vez.
Algumas precisam ser aproximadas aos poucos, com respeito, prática e maturidade interior.
Por agora, basta compreender o essencial: para nós, caminhar não é apenas deslocar-se. É alinhar-se. Os grandes símbolos, como a Chakana, servem para orientar a caminhada da vida.
O que a Chakana pode ensinar hoje
Talvez você não vá viver no Peru, numa montanha sagrada. Talvez não participe de uma cerimônia diante do fogo. Talvez nunca tenha visto uma Chakana tecida sobre a terra como eu vi naquele dia.
Mas isso não significa que esse símbolo não tenha nada a lhe dizer.
Pelo contrário.
A Chakana é profundamente atual, porque o ser humano moderno perdeu o centro.
Estamos cheios de informação, mas sem direção.
Cheios de estímulos, mas sem silêncio.
Cheios de conexões, mas com pouca relação verdadeira.
Cheios de técnicas, mas pobres em sabedoria.
A Chakana nos lembra que a vida precisa de eixo.
Ela nos chama de volta ao equilíbrio com:
as posições cósmicas,
a Pachamama e seus seres,
a sociedade,
nossos irmãos e irmãs,
e nós mesmos no meio dessa trama viva.
Ela nos lembra que não somos donos da existência.
Somos ponte.
Entre o céu e a terra.
Entre o que recebemos e o que oferecemos.
Entre a memória dos antigos e a responsabilidade de viver conscientemente hoje.
O só fato de levá-la sobre o peito já será uma grande ajuda na sua vida.
A cruz que vi sobre a terra
Com o passar dos anos, voltei muitas vezes àquela imagem.
As mantas coloridas sobre o chão.
O fogo aceso.
Os anciãos se movendo com precisão serena.
A forma da Chakana aparecendo pouco a pouco diante dos meus olhos.
Hoje entendo que o que me comoveu não foi perceber, antes mesmo de saber explicar, que a realidade podia ser vivida de outra maneira.
Sem pressa.
Sem fragmentação.
A Chakana me ensinou isso antes de eu conseguir colocar em palavras.
E talvez continue dizendo o mesmo a todo aquele que a contempla com sinceridade:
a vida tem um centro. E voltar a ele é possível.
Se quer se nutrir da grande sabedoria dos templos da Chakana em Machu Picchu, entenda mais sobre a jornada espiritual ao Peru deste ano.
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