Capítulo 1

Pachamama A Terra Como Mestra

“Santa Terra Pachamama, sou teu filho Giuliano. Te agradeço por me receber, mamallai.”

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Ancião andino com a lua ao fundo — o primeiro par que aprendi a reconhecer
Esse foi o ritual mais profundo do sagrado feminino que aprendi.

O beijo que me ensinou

Ainda sinto um arrepio com cheiro de saudade e de terra molhada pela chuva cada vez que me lembro do maestro que me acolheu e me ensinou a sabedoria espiritual inca. Especialmente quando lembro daquele gesto cheio de amor e humildade autêntica que ele tinha quando chegávamos a uma comunidade para ajudar os moradores.

Ele se ajoelhava, apoiando a mão esquerda sobre a perna esquerda para descer devagar. Exalava guturalmente e, com as duas mãos sobre a terra, a beijava.

Um beijo demorado, amoroso, aquele que você dá para sua mãe em reconhecimento maduro por tudo o que ela fez por você.

Um beijo que me ensinou mais sobre como nos relacionarmos com a Pachamama e com o sagrado feminino do que quatro livros inteiros.

A Terra é a Vida

Na cosmovisão andina, a Pachamama — a Mãe Terra — não é apenas o chão que pisamos.

Ela é um ser vivo, consciente, que sente, que responde, que cura. Ela não apenas sustenta a vida: ela é a vida, em sua forma mais generosa e silenciosa.

Esse princípio tem nome: Yanantin.

Por isso, para a tradição inca, a relação com a terra nunca foi simbólica demais nem distante demais. Sempre foi íntima.

Os incas não construíam seus templos sobre a terra, como se fossem seus donos. Construíam com ela, em diálogo. As pedras de Cusco, os relevos, as montanhas, tudo era lido com reverência.

Machu Picchu não domina a montanha — ele pertence a ela.

Essa forma de viver revela um princípio espiritual profundo: a cura começa quando paramos de lutar contra aquilo que nos sustenta.

Se Yanantin descreve a estrutura de polaridade da realidade — o fato de que existem dois polos — Tinkuy descreve o movimento: o encontro, o gesto de cada polo em direção ao outro.

Quando juntamos os dois, temos Yanantinkuy: a complementaridade de conceitos que parecem opostos, mas que na verdade se pertencem. Durante a Jornada Espiritual ao Peru os peregrinos entendem o Pachamama. Como ritual, com histórias, com vivências que ficam para sempre nos corações.

Chakana inca — símbolo da complementaridade andina
A terra faz a energia fluir.

A Terra que Acolhe o que Pesa

Talvez seja justamente isso que tenhamos esquecido. Vivemos entre concreto, carros, telas e pisos frios. Passamos dias, semanas, às vezes meses sem tocar a terra conscientemente.

Algo em nós ainda se lembra de que viemos da terra e continuamos precisando dela.

E, quando nos afastamos dela, também nos afastamos de uma sabedoria antiga que o corpo ainda reconhece: a sabedoria do enraizamento.

Na tradição andina, a terra também tem a capacidade de receber aquilo que nos pesa.

Ela acolhe a hucha — a energia densa que acumulamos nas preocupações, nos medos, nas tristezas e nos excessos. Assim como as raízes transformam o que está enterrado em nutrição, a Pachamama recebe o que já não conseguimos carregar e transmuta em força de vida.

Por isso, tocar a terra não é apenas um gesto bonito. É uma forma de relação. Uma forma de oração. Uma forma de cura.

Esse é o terceiro conceito — o mais misterioso e o mais poderoso: Masintin.

Voltar à Proporção

Foi isso que aprendi com aquele beijo.

Enquanto Yanantin descreve os polos e Tinkuy descreve o movimento de aproximação, Masintin é a capacidade profunda dos opostos de se unirem de forma real, criadora, fecunda. A alquimia de dois em um.

Antes de qualquer cerimônia, antes de qualquer palavra, antes mesmo de dispor os elementos sobre o altar andino, talvez devêssemos começar assim: lembrando.

Lembrando de onde viemos. Lembrando que a terra não está abaixo de nós, mas ao nosso redor e dentro de nós.

Lembrando que espiritualidade sem humildade vira abstração.

A terra ensina humildade porque nos devolve à proporção.

Ela nos recorda que não somos donos da vida, mas filhos dela.

Isso é Masintin. Magia. A mais potente do universo.

E, às vezes, um simples gesto de reverência sincera pode ensinar mais do que longas explicações.

A terra não está abaixo de nós. Está ao nosso redor — e dentro de nós.

Sobre Giuliano

As raízes de onde falo

Giuliano Salas — guia espiritual andino

Existe um momento na vida em que as respostas que o mundo nos oferece deixam de ser suficientes. Você já sentiu isso? Uma inquietação que não passa com uma viagem de lazer, uma conquista profissional ou uma nova técnica de meditação aprendida em um aplicativo. Algo mais fundo. Como se uma parte de você soubesse, há muito tempo, que existe um caminho que ainda não foi percorrido. Eu conheço esse sentimento. Ele me acompanhou durante anos.

Nasci no Peru, em uma família fortemente conectada com a espiritualidade. Recebi minha primeira iniciação em Machu Picchu aos 8 anos de idade. Ao final do meu preparo no sacerdócio inca, meu mestre me disse que eu deveria levar a tradição para o Brasil. Desde então, em onze anos, centenas de pessoas cruzaram comigo as portas dessas montanhas sagradas. Estes 5 códigos transmitem a sabedoria da minha linhagem. Não são técnicas. São convites — para uma forma diferente de estar no mundo.

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Caminhar com os 5 códigos no Peru

Há uma diferença entre ler sobre Pachamama e caminhar pelas pedras que o ensinam. Durante a Jornada Espiritual ao Peru, os pares deixam de ser conceito. Viram ritual, história, vivência — e ficam para sempre no coração.

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