Sumaq Kawsay A vida feliz e consciente
5 mins de leitura“É possível ter problemas e mesmo assim ter paz.”
O que é Sumaq Kawsay
Sumaq Kawsay é um conceito da filosofia andina que significa, em quéchua, vida grandiosa ou vida plena e consciente. Vai além do buen vivir (Allin Kawsay): não é apenas viver com saúde e harmonia, mas viver com a consciência de que somos parte de um grande tecido vivo que inclui pessoas, natureza, cosmos e o sagrado. É possível ter problemas e mesmo assim habitar o Sumaq Kawsay — porque essa consciência não depende das circunstâncias externas.
Vou te contar uma história.
Lembro de mim por volta dos trinta anos, buscando intensamente o caminho espiritual. Naquela época, eu passava horas discutindo, nos comentários do Facebook, com pessoas que pensavam diferente de mim.
Me irritava. Precisava ter razão. Precisava vencer o argumento. Precisava que o outro visse a verdade — ou, pelo menos, a verdade do que eu pensava naquele momento.
Hoje eu rio disso.
Também me lembro de como eu reagia quando encontrava certas frases espirituais na internet. Especialmente aquelas do tipo:
“Confie no processo.”“Tudo vai ficar bem.”
“Tudo faz parte de um plano divino.”
Essas frases me tiravam do serio.
Tudo está bem? Em serio?
Você vai resolver meus problemas?
Você vai melhorar essa relação que eu já não aguento mais?
Você vai trabalhar no meu lugar com aquele chefe que não suporto?
Você vai carregar por mim a dor, a confusão, a angústia?
Naquele tempo, essas frases me pareciam superficiais. Muitas vezes, realmente são. Porque podem virar apenas consolo barato para quem não quer agir. É fácil falar. Mais difícil é fazer.
Mas a maturidade espiritual muda as coisas. E para viver em Sumaq Kawsay é preciso estar em paz.
Mas antes disso, na tradição andina, chamamos de Allin Kawsay aquilo que pode ser traduzido como bom viver, ou vida boa.
É uma vida em que existe saúde. Prosperidade. Boa relação entre amigos. Harmonia na família. Boa convivência entre marido e mulher. Paz entre pais e filhos. Boa relação com Deus. Uma vida ordenada, fértil, bonita. Uma vida que todos nós podemos alcançar.
Muitos estudantes da espiritualidade andina já aprenderam sobre esse princípio nas comunidades dos Andes e começaram a falar sobre ele em outras partes do mundo. Isso é bonito. Mas, e quando chegam os problemas? com o passar do tempo, senti que ainda faltava uma palavra para apontar algo maior.
Por isso, quero trazer aqui outro termo:
Sumaq Kawsay.
Sumaq quer dizer grandioso.
Kawsay é vida, ou energia de vida.
Para mim, Sumaq Kawsay é mais do que viver bem.
É viver com plena consciência.
O grande tecido
Consciência de quê?
Consciência de que fazemos parte de um grande tecido vivo. Mas até essa imagem &eacu é imperfeita. não é que sejamos peças de um quebracabeças.
Eu diria que o universo é mais como uma teia de aranha. Pode uma teia de aranha ser dividida em partes? O universo também não. Ele é uma totalidade viva, contínua. Nós estamos nele, mas também somos ele. Somos um pequeno ponto que é aquele imenso tecido.
Por isso, a ideia de separação é uma fantasia.
É fantasia acreditar que estamos isolados uns dos outros.
É fantasia pensar que o que fazemos ao outro não nos toca.
É fantasia imaginar que nossa consciência está solta, separada da terra, do ar, dos animais, das estrelas e das outras pessoas.
Se observamos um corpo humano de perto, vemos a pele. Aproximando mais, vemos os poros. Mais perto, as células. Depois as moléculas. Depois os átomos, as partículas subatômicas. Naquele nível a separação já não se sustenta do mesmo jeito que parecia sustentar-se antes.
Nesse nível, já não existe uma fronteira tão sólida entre “eu” e o ar que me rodeia, entre o meu corpo e o chão que me sustenta, entre o ser humano e o resto da criação.
Entender o Sumaq Kawsay é viver com essa consciência desperta.
É agir com amor diante de cada pessoa, cada planta, cada animal e cada coisa, porque tudo participa da mesma realidade viva. Tudo manifesta, à sua maneira, um princípio divino que não está apenas acima de nós, mas também dentro de nós e através de nós.
Hoje a minha vida não está ausente de problemas, assim como a vida de ninguém está. Eu continuo tendo desafios, perdas, tensões, decisões difíceis e momentos de dor. A diferença é que, agora, há em mim uma convicção mais serena.
- Não se trata de confiança cega.
- Não se trata de ilusão positiva.
- Não se trata de cruzar os braços e esperar.
É uma certeza mais profunda: a de que tudo pode ser conduzido pelo melhor caminho quando estamos conscientes, presentes e em relação correta com a vida.
Naturalmente, eu ajo todos os dias para que um futuro bom se manifeste. Trabalho. Decido. Corrijo. Recomeço. Sustento o que precisa ser sustentado.
Mas já não faço isso com o mesmo nível de ansiedade, estresse, frustração ou desespero de antes.
É disso que estou falando.
Viver com paz no meio da vida
Sumaq Kawsay é respirar com tranquilidade diante dos grandes problemas da vida.
Não porque os problemas desapareceram.
Mas porque algo dentro de nós amadureceu.
Quando essa consciência se instala, compreendemos que tudo participa da nossa evolução. Cada desafio, cada conflito, cada perda, cada prova, cada encontro, cada ruptura — tudo pode ser vivido como parte do caminho.
Isso não nos torna passivos.
Nos torna lúcidos.
A pessoa consciente deixa de reagir a tudo como se estivesse sendo atacada o tempo inteiro. Deixa de se mover apenas pelo medo. Deixa de desperdiçar energia lutando contra a própria realidade.
Ela começa a agir com mais inteligência, mais amor e mais paz.
E essa paz não vem da ausência de responsabilidade.
Vem da presença de consciência.
Amar a vida como ela é
Viver em Sumaq Kawsay é viver amando o que nos rodeia.
Não de forma ingênua. Não como quem romantiza tudo. Não como quem finge que não existe injustiça, violência, limitação ou dor.
É amar a realidade como campo de evolução.
Amar a Pachamama.
Amar os seres.
Amar a própria vida.
Amar o processo.
Amar inclusive aqueles comentarios do Facebook (ou Instagram)
Porque, quando compreendemos que não estamos separados, o amor deixa de ser apenas um sentimento bonito. Ele se torna uma forma inteligente de participar da realidade.
Fazer o mal ao outro deixa de parecer uma estratégia válida, porque a consciência já começa a perceber que toda agressão desordenada retorna ao próprio tecido do qual fazemos parte.
Talvez seja por isso que a paz verdadeira não nasce da fuga do mundo, mas da percepção profunda de pertencimento.
Allin Kawsay e Sumaq Kawsay
Allin Kawsay é uma vida boa.
Sumaq Kawsay é uma vida boa vivida com consciência.
Allin Kawsay organiza o entorno.
Sumaq Kawsay ilumina o centro.
Sem consciência, a vida boa pode virar apenas conforto.
Com consciência, até as dificuldades se tornam matéria de evolução.
É por isso que considero este um passo mais maduro do caminho.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre Sumaq Kawsay e buen vivir?
Buen vivir é a tradução de Allin Kawsay — viver bem, com saúde, prosperidade e harmonia familiar. Sumaq Kawsay vai um passo além: é viver com plena consciência de nossa interdependência com tudo que existe. Allin Kawsay é o chão. Sumaq Kawsay é o que habita esse chão com olhos abertos.
Sumaq Kawsay significa viver sem problemas?
Não. O Sumaq Kawsay não é a ausência de desafios — é a presença de consciência diante deles. Como Giuliano Salas explica neste capítulo: “É possível ter problemas e mesmo assim ter paz.” A diferença está em agir com amor e lucidez, não em evitar o que a vida traz.
Como praticar o Sumaq Kawsay no dia a dia?
Durante o dia, pare diante de uma pessoa, animal ou planta. Respire três vezes. Diga para si mesmo em silêncio: “Você também é o mesmo tecido da vida que eu sou.” Repetida com sinceridade, essa percepção de unidade começa a mudar a forma como você habita o mundo.
De onde falam estas palavras
Viver em Sumaq Kawsay nos Andes
Existe uma diferença entre ler sobre pertencimento e estar de joelhos no chão de um templo inca a 3.400 metros de altitude, sentindo na pele que a montanha, o vento e você são feitos da mesma coisa. Na Jornada Espiritual ao Peru, Sumaq Kawsay deixa de ser conceito. Vira experiência.
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