Curandeiro e futebolista

Me falaram muito de Don José, um curandeiro do Alto Amazonas peruano, especialista em preparar perfumes com flores amazônicas para afastar maus espíritos e fortalecer os valores das pessoas que ele ajudava. Diziam que ele trabalhava com as sereias do rio. Antes de conhecê-lo, eu tinha uma imagem muito clara dele: um sábio mestre da selva peruana, algo como o Mestre Yoda para Luke Skywalker.

Finalmente, depois de alguns meses, tive a oportunidade de conhecê-lo. Era um homem baixinho, de uns 60 anos, e a primeira coisa que chamou minha atenção foi sua camiseta azul brilhante, com um enorme número cinco nas costas. Usava jeans, havaianas e um boné preto, completamente embranquecido pelo sol da selva. Um dia me contou que quando era novo passava as manhãs aprendendo sobre o cacau e outras plantas com seu avô e as tardes treinando na quadra de terra para ser como Pelé.

Mas Don José era muito mais do que isso. Mais do que um mestre que trabalhava com os espíritos das sereias. Mais do que um futebolista sonhador. Mais do que um curandeiro do Alto Amazonas. Don José foi amigo, confidente e mestre. Durante o tempo que vivi na selva, aprendi com ele muitos rituais para as águas, cantos ancestrais, cerimônias de renascimento e limpezas com tabaco. Mas, entre tudo, o que mais levo no coração é a retidão dos atos. Seu ícaro que mais recordo confessava, entre uma melodia que parecia se perder entre a Amazônia e os Andes: “Tabaquito curandero, enséñanos la rectitud, Tabaquito, curandero, enseñando buenos actos, Tabaquito, curandero, limpiando, corazoncitos.”

Cada ano que retorno à selva levando buscadores que estão prontos para a iniciação do Cacau, reencontro Don José para que eles também possam sentir a energia dos rios, das sereias, do tabaco e das flores. Certamente, as penas não fazem o curandeiro. Mas as camisetas de futebol também não. O que faz um curandeiro é aquilo que ele sustenta quando ninguém está olhando: sua relação com os espíritos, sua palavra, sua presença e a retidão dos seus atos. Nos dias 13 e 14 de junho, vou abrir um workshop para quem já é guardiã ou guardião do Cacau e para quem quer aprender esta medicina desde o zero: dia 13, desde a selva; dia 14, desde Cusco. Se esta história tocou seu coração, talvez o chamado não seja apenas para ler sobre a medicina, mas para se aproximar dela com respeito, ética e presença.

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